HELDER CÂMARA EM “AS NOITES DE UM PROFETA”
Manuel Augusto Rodrigues
1. A presença de Hélder Pessoa Câmara no Vaticano II é considerada como das mais carismáticas na magna assembleia da Igreja entre 1962-1965. Missionário, místico e poeta, era natural de Fortaleza (1909) e foi nomeado bispo auxiliar (depois arcebispo!) do Rio de Janeiro (1952), donde por divergências com o cardeal Jaime Câmara passou em 1964 para Olinda e Recife, que pastoreou até 1985. Faleceu aos 90 anos de idade no Recife, a 27 de Agosto de 1999.
Na sua formação teve papel relevante o director espiritual, o padre jesuíta Leonel Franca (1893-1948), criador e reitor da primeira Universidade Católica do Brasil, no Rio de Janeiro. Também a leitura de Maritain e Mounier e os contactos com alguns leigos empenhados na renovação da sociedade e da Igreja muito contribuíram para a sua formação intelectual e espiritual, que o livro “Les conversions d’un évêque” mostra claramente. Maritain apropriou os aspectos da democracia que favoreceram o crescimento da liberdade pessoal e a dignidade humana. Já Cícero no seu “De officiis” havia escrito: «Nós não nascemos somente para nós [...] tudo o que a terra produz é criado para o nosso uso, e nós mesmos como seres humanos nascemos para outros a fim de podermos ajudar os outros como nós mesmos. Portanto devemos tomar a natureza como guia e contribuir para o bem comum da humanidade por actos recíprocos de bondade, dando e recebendo de uns e outros e, assim, pelas nossas aptidões, capacidades e talentos trabalhamos para construir uma sociedade em paz e harmonia».
Alguém escreveu acerca dele que é caminhando sobre a estreita linha dum cume em que se confundem e se distinguem ao mesmo tempo a história e a eternidade que Hélder Câmara atravessou o séc. XX. A história está em cada instante presente na sua vida. É a história do gigante brasileiro, do paiol latino-americano, do desafio lançado aos impérios garantidos pela Internacional dos oprimidos. A eternidade é mais discreta e aparece no encontro da "véspera" que, todas as noites, depois do seu recolhimento, Hélder consagrava à oração. Na charneira da história e da eternidade, sem nunca esconder os erros cometidos e as conversões necessárias, Hélder é um daqueles que mais fizeram para libertar o catolicismo».
2. Brilhante, entre as muitas iniciativas do bispo Hélder, foi o contributo dado para a criação em 1952 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com sede no Rio de Janeiro e em 1955 do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) com sede em Bogotá. Para a fundação de ambas as assembleias foram decisivos os estreitos contactos de Câmara, a partir de 1950, com Montini, então subsecretário de Estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI. No Vaticano funcionam a Congregação da Evangelização dos Povos e a Pontifícia Comissão para a América Latina.
Desde os anos 50 do séc. XX assistiu-se na América Latina e Caraíbas a um extraordinário empenho por parte da Igreja na defesa dos direitos humanos, nomeadamente na luta contra a pobreza, o analfabetismo e todas as formas de injustiças. O CELAM presta serviços de contacto, comunhão, formação, pesquisa e reflexão às 22 conferências episcopais que se situam desde o México até o Cabo de Hornos, incluíndo as Caraíbas e as Antilhas. Até ao presente já se realizaram cinco conferências gerais: Rio de Janeiro (1955), Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007).
3. Câmara foi um grande promotor da colegialidade dos bispos e das reformas na Igreja, fortalecendo a dimensão do compromisso social, como revelou à saciedade no Vaticano II. Seria longo enumerar todas as realizações em que interveio activamente, limitando-nos à fundação da Cruzada São Sebastião para dar habitação às pessoas das favelas e do Banco da Providência para aqueles que viviam em condições desumanas. Pregava uma Igreja simples, voltada para os pobres e a não-violência, pelo que foi chamado pelos seus opositores “arcebispo vermelho” e acusado de ser conivente com o marxismo, tendo tido grandes atritos com o poder político. Entre tantos pensamentos escolhemos este: «Mas enquanto dois terços da humanidade são subdesenvolvidos, como vamos gastar grandes quantidades de dinheiro na construção de templos de pedra esquecendo o Cristo vivo, presente na pessoa dos pobres?». Pregava dentro e fora do Brasil uma fé cristã comprometida com os anseios dos empobrecidos. Fez frequentes viagens ao estrangeiro, onde divulgou amplamente as suas ideias e denunciou as violações dos direitos humanos. Foi adepto e promotor do movimento da não-violência activa. À ideologia de certa teologia da libertação opunha a verdade do Evangelho.
Câmara é autor e objecto de vários livros e estudos, todos eles reveladores das suas preocupações sociais, com um profundo sentido eclesial e uma grande espiritualidade. Alguns deles foram escritos ou traduzidos para diversas línguas. Lembramos “Prier pour les riches” (Zurique, 1972) em que fala dos problemas criados pela corrida às riquezas desenfreadas, resultado de falta de inteligência, lucidez e sensibilidade social dos ricos que, afinal, são os verdadeiros pobres.
4. Dedicou-se um programa condigno aquando do centenário do nascimento de Hélder. De destacar ainda o Prémio Hélder Câmara de Imprensa instituído pela Assessoria de Imprensa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 2002, por ocasião dos 50 anos da sua fundação, o qual premeia profissionais e trabalhos jornalísticos sobre a promoção do bem comum e dos valores humanos, cristãos e éticos. A Comenda de Direitos Humanos Hélder Câmara, do Senado Federal, foi criada em 2010, e destina-se a agraciar personalidades que tenham oferecido contribuição relevante para a defesa dos direitos humanos no Brasil.
Mas já ao longo da vida, Hélder havia recebido várias distinções: em 1969, a de doutor “honoris causa” pela Universidade de Saint Louis, Estados Unidos, o mesmo tendo sucedido noutras universidades brasileiras e estrangeiras, somando um total de 32 títulos, o que é deveras significativo.
Foi intitulado Cidadão Honorário de 28 cidades brasileiras e da cidade de São Nicolau na Suíça e Rocamadour na França. Recebeu o Prémio Martin Luther King nos Estados Unidos e o Prémio Popular da Paz na Noruega. Por quatro vezes teve o Prémio Nobel da Paz à vista, o que não se verificou devido a intervenções contrárias dos seus adversários.
5. Em “As noites de um profeta” de José de Broucker podemos conhecer a intensa actividade de Hélder no Concílio. Deste livro podemos extrair dados deveras interessantes e apaixonantes sobre o seu trabalho em Roma. Quando um homem fora do comum, Hélder Câmara, tem a fortuna de viver um acontecimento excepcional como foi o Concílio Vaticano II, vale a pena ser contada a história que os participantes escrevem juntos, afirmou um autor.
O pequeno arcebispo de Olinda e Recife, que ainda não era a mundialmente célebre “voz dos sem voz”, não cessou de “consciencializar” e de “articular”, nos bastidores, os actores do Concílio, teólogos e bispos, e até o próprio Papa, acerca de um programa claro: a edificação de uma outra Igreja, servidora e pobre, ao serviço dum outro mundo, mais justo, mais humano, mais fraterno. Como escreve Juan Maria Laboa na introdução àquele livro: «Neste sentido, Hélder Câmara foi um voz sonora de reclamação e de acusação a uma Igreja demasiado europeia, demasiado acomodada, pouco sensível à situação dos outros mundos, que sofriam a extrema miséria e em que vivia a maioria dos católicos». A Europa do chamado Primeiro Mundo que outrora missionou os outros continentes recorre agora aos evangelizadores de fora para ser recristianizada. Exausta e já sem a seiva da fé, perdeu o vigor de outrora.
6. Foi incansável durante o Vaticano II não esquecendo o seu povo. Dirigiu 290 cartas circulares aos seus mais directos colaboradores. São testemunhos eloquentes, escritos quase sempre de noite, que incluem conferências, mensagens radiofónicas, meditações espirituais e poéticas, reflexões e documentos de acção social e pastoral, constituindo um verdadeiro tesouro.
Em 2003, o IDHec (Instituto Dom Hélder Câmara propôs-se concretizar um programa, chamado “Opera omnia”, que incluem 2. 122 diários endereçados aos seus colaboradores mais próximos e que se estendem de 1962 a 1982. Voltaremos a este assunto. Câmara defende a sacramentalidade episcopal, o colégio e as conferências episcopais, que deviam participar activamente no governo universal da Igreja, pois todos os bispos são igualmente responsáveis. Por isso ficou desapontado pelo facto de Paulo VI em 1965 ter criado o Sínodo episcopal apenas como órgão consultivo e de reflexão. Câmara comenta que se perdeu mais uma vez uma excelente ocasião de proceder às tão desejadas reformas da Igreja.
Hélder comenta, por exemplo que a doutrina social da Igreja não se pode limitar às encíclicas “Mater et magistra” e “Pacem in terris”, pesem embora os seus méritos. Elas foram escritas por europeus, pelo que é necessário uma outra encíclica dirigida ao Terceiro Mundo e uma maior atenção e proximidade para com os mais necessitados. À distância de 50 anos, mas já noutra época, e agora em Ano da Fé e da Nova Evangelização e com o novo Papa, filho da América Latina, Câmara emerge como uma personalidade maior do séc. XX que nos deixou uma preciosa mensagem, prenhe de actualidade.