Era o Filho de Deus
Jesus não é só a revelação de Deus, é também a revelação do homem. Ele é, na verdade o Filho do Homem, o Homem na plena realização do desígnio de Deus, aceitando livremente a condição de criatura respondendo ao amor do Pai por uma entrega incondicional na obediência. Como não é possível amar O Pai sem envolver no mesmo amor todos os filhos, assim vemos Jesus quebrar todas as barreiras que privilegiavam uns em detrimento de outros. Já na Antiga Aliança o mandamento que resumia toda a Lei e os profetas, ou seja, toda a Palavra era amar a Deus, com todo o coração e ao próximo como a si mesmo. A grande novidade consiste em saber quem é o próximo. Na Antiga Aliança, o próximo era obviamente aquele que estava perto, o membro do mesmo povo, da mesma raça, súbdito da mesma lei. Na Nova Aliança, próximo é aquele de quem nos aproximamos.
Amar assim é amar como Jesus amou. Pois, amar quem me, ama, quem me faz bem, quem é simpático, isso é de qualquer pagão. Agora amar quem me ofende, quem me persegue, amar o meu inimigo... isso é de Deus e de quem deve ser perfeito como é perfeito o Pai do céu. Perante tamanha exigência, compreendemos a insistência de Marcos em sublinhar dois aspectos da Paixão de Jesus: a sua solidão e o seu silêncio.
A SOLIDÃO
Na «hora» as multidões abandonaram-n'O. Os discípulos, incapazes de O acompanharem, adormecem e depois fogem. Diante do Sinédrio ninguém se apresenta para O defender mas é possível encontrar duas testemunhas que depõem contra Ele. O próprio Pai parece ausente...
Situações análogas encontramo-las na vida de qualquer cristão que queira manter-se fiel à verdade e à justiça num mundo marcado pela inverdade e pela injustiça.
E possível que nos encontremos sós, abandonados de todos, até de amigos e familiares. Podemos chegar a duvidar se estamos a trilhar o caminho certo, se Deus estará do nosso lado. É o momento de nos entregarmos ao mistério incompreensível de Deus, não um Deus à nossa medida, mas um Deus capaz de resolver no infinito do seu amor todas as perguntas que se levantam no nosso coração angustiado. «Sei que não ficarei envergonhado» (1." Leitura).
O SILÊNCIO
Perante o Sinédrio só abre a boca quando o sumo sacerdote o intima com autoridade a que diga se é o Messias. Perante Pilatos, nada responde a não ser quando este lhe pergunta se é o rei dos Judeus. Que sim. Agora já não há perigo que o aclamem como aos outros senhores que dominam sobre os súbditos. É Rei, sim, mas ao divino, para servir: rei-escravo. Na cruz, a única palavra que Marcos põe na boca de Jesus é a temível pergunta que exprime o supremo abandono: meu Deus porque me abandonaste? Resta apenas a palavra silenciosa que resume toda uma vida que se entrega na total confiança.
O FILHO DE DEUS
Quando surgir a tentação de nos escandalizarmos com o silêncio de Deus perante a injustiça de tantas situações, a mentira de tantos poderes constituídos, a inutilidade aparente de tantas vidas, e mais ainda quando isto nos diz respeito podemos lembrar-nos de olhar para Jesus como para mais um escravo que morre crucificado, em vez de se rir de um Deus que não vem salvar quem n'Ele confiou, exclama: «Na verdade, este homem era o Filho de Deus».